quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A musa venal




Musa do coração, amante dos palácios,
Terás, quando janeiro libertar seus Bóreas,
Durante o negro spleen das noites hiperbóreas,
Tição para aquecer os teus dois pés violáceos?


E vivificarás as espáduas marmóreas
Só de expô-las aos raios dos luares frios?
Se sentires a bolsa e o estômago vazios,
Irás colher o ouro das mansões equóreas?

Deves para ganhar o teu pão ilusório
Ser menina de coro e mover o incensório
E cantar o Te-Deum em que não crês mais nada,

Saltimbanco em jejum exibir teu encanto
E teu riso molhado em invisível pranto
Pra vulgo explodir em sua gargalhada.

A musa doente ( Charles Baudelaire )


Ah, minha pobre musa, o que tens esta vez?
Teus olhos ocos são todos visões noturnas
E alternativamente refletes na tez
Loucura e horror, as sombras taciturnas.

Sobre ti, róseo duende e súcubo esverdeado
Derramaram o medo e o amor de suas urnas?
O pesadelo, o punho despótico e irado,
Afogou-te no fundo de incerto Minturnas?

Quisera que, exalando o aroma da saúde,
Fosse teu seio só a força e a juventude,
Que o teu sangue cristão fluísse em cadencia

Das antigas sílabas ritmando em freqüência
Em que alternam seu reino o inventor da cantiga
Febo e o divino Pã, o senhor da áurea espiga.