quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Dom Juan dos infernos

Quando Don Juan desceu ao subterrâneo rio,
E pagou seu óbulo ao barqueiro supremo,
De Antístenes rival, um mendigo sombrio,
Com braço firme e forte segurou cada remo.

Os seios a pender, as roupas entreabertas,
Mulheres se torciam ao negro firmamento,
Como um tropel de vítimas nas sangrentas ofertas
Arrastavam atrás dele o mais longo lamento.

Sganarello reclamava o penhos e sorria,
Enquanto Don Luís em trêmulos arrancos
Mostrava a cada morto e pela margem fria
O filho que zombou de seus cabelos brancos.

Fremindo no seu luto, a casta e magra Elvira,
Junto ao pérfido esposo e que foi seu amante,
Era triste de ver que ele não mais sorrira,
Seu sorriso inicial, tão doce e tão brilhante.

Reto em sua couraça, homem de pedra, imenso,
Governava o timão e cortando a onda apagada,
Mas apoiado ‘a espada, o herói, posto em silêncio,
Olhava a singradura, mas não via nada